O
modo como nos relacionamos com o mundo a nossa volta está intrinsecamente
ligado à forma como o percebemos, pois a percepção se dá através da memória, da
relação que estabelecemos com aquilo que experimentamos e conhecemos. Quanto
mais rica for a experiência de uma criança em relação a leitura, por exemplo,
maiores serão suas habilidades de manusear os portadores textuais; de
antecipar, de inferir, de verificar o que está escrito; de selecionar
determinada leitura por um objetivo pessoal, enfim, de utilizar as estratégias
e competências de um leitor proficiente mesmo que ainda não o seja.
Diferentemente daquela criança que pouco estímulo recebe na família e
certamente terá menores habilidades para perceber o mundo da leitura. Neste
caso, cabe à escola proporcionar o contato com livros de qualidade, com
diversos portadores textuais (jornais, revistas, gibis, entre outros) para que
esse sujeito aprendente possa relacionar-se com o conhecimento de forma
concreta e com cada vez mais autonomia. São as práticas de leitura, ou seja ,
será necessário ao professor planejar atividades em que a criança seja levada a
ler mesmo que ainda não o faça fluentemente, a desenvolver sua fluência e
compreensão leitora, como por exemplo: leitura pelo professor, leitura pelo
aluno, leitura colaborativa, leitura programada, entre outras. A leitura está
intimamente ligada às demais áreas do conhecimento. Em matemática o aluno
torna-se autônomo à medida que consegue ler por si determinada situação
problema, compreendê-la e elabora estratégias para resolve-la, ou mesmo em
conjunto com colegas consegue ler e expor sua opinião sobre a resolução daquele
problema. Em Ciências, a leitura se faz necessária, por exemplo, em uma
pesquisa: ao selecionar textos ou
livros, ler, grifar, selecionar informações; ao realizar uma experiência,
torna-se necessária a leitura das etapas ou ainda a leitura para revisão de
suas hipóteses e verificação após os resultados experimentais. A leitura abre
portas para o mundo, sem ela, mesmo que o sujeito seja “letrado”, ou melhor,
tenha conhecimento de mundo, de vivencia, ainda assim encontrará enormes
dificuldades se não tiver adquirido as competências leitoras fundamentais.
Até
mesmo para aprender a aprender, o que para nós educadores é uma competência
fundamental pois vivenciamos grandes mudanças de paradigmas, teorias e
conceitos a todo instante e se não estamos preparados para ler, analisar e
refletir sobre essas transformações, e isso só se consegue com embasamento
teórico e experimentação, seremos “engolidos” por qualquer modismo que surgir.
Por isso a necessidade de o professor ser um pesquisador, dentro de suas
práticas, e um estudioso de como o ser humano aprende e de como podemos
proporcionar que ele aprenda de forma significativa, ampliando seus conhecimentos
e em consequência, seu campo de percepções acerca do mundo que o rodeia.
Segundo a Psicologia,
Neurociências e Ciências Cognitivas, percepção é a função cerebral que atribui
significado a estímulos sensoriais, a partir de histórico de vivências. Através
da percepção o sujeito organiza e interpreta as suas impressões sensoriais para
atribuir significado ao seu meio. Consiste na aquisição, interpretação, seleção
e organização das informações obtidas pelos sentidos, envolvendo processos
mentais, memória e outros aspectos que podem influenciar na interpretação dos
dados percebidos. Desse modo, trabalhar a percepção seria o caminho
mais adequado, do que aplicação dos métodos formais, já que se produz maior
riqueza, variedades e disponibilidade de dados e soluções quando a percepção se
faz mais clara e abundante na diferenciação.
Ainda dentro dos pressupostos das neurociências, as dificuldades
na aprendizagem dos indivíduos devem-se aos seguintes apontamentos:
- Sua percepção está alterada por atitudes
cognitivas reativas e defensivas, tais como: a impulsividade; a
dependência dos estímulos; o medo; a passividade ante a exploração; a
inibição, cujo efeito é reduzir de modo exagerado o tempo eficaz da busca
da informação.
- Oferecem resistência a levar em
consideração seus erros, ou tendem a desconsiderar tudo sem analisar a
fonte do erro. Esta atitude agressiva se observa em muitas pessoas com
consequente repercussão sobre seu desenvolvimento cognitivo, sobretudo estende-se
aos seus comportamentos de modo generalizado.
- O sistema de motivação desses sujeitos
dirige sua atenção aos atributos exteriores sem ter em conta os estímulos
internos, fundamentalmente do campo perceptual, na resolução dos
problemas. É fácil perceber nessa pessoa o estado de dependência no
mediador e dos companheiros, principalmente quando tem que realizar
tarefas de forma individual.
- O modo de funcionamento cognitivo da
pessoa, puramente repetitivos, bloqueia a busca de estratégias: descrever,
comparar, relacionar e representar o problema. Sendo esse um dos
motivos da dificuldade em seu desenvolvimento cognitivo.
Partindo desses apontamentos
sobre os indivíduos com dificuldades na aprendizagem, uma aula repetitiva, em
que as informações são puramente depositadas, pretendendo-se que os alunos
acrescentem informação sobre informação como uma parede de tijolos (em que os
tijolos não se comunicam pois há um abarreira de cimento entre eles) não
ajudaria a criar um ambiente favorável á aprendizagem daqueles acima citados. Todas
as pessoas com o cognitivo preservado,ou seja, que não apresentam uma deficiência
cerebral seria que compromete a aquisição de conhecimentos, são capazes de
perceber os objetos que estão ao seu redor e seus atributos (lisos,
opacos, grandes, de cor, rígidos, móveis). Porém exige uma mediação que amplie
a diferenciação para encontrar a informação específica, organizar esquemas e
propriedades. A percepção mediada
orienta e permite enriquecer seus esquemas perceptuais com mais rapidez e
precisão. Não é a idade, nem a capacidade, que marca as diferenças individuais
nas formas de perceber e organizar o contexto. Afirmamos que é a presença ou
ausência de aprendizagem mediada o
que constitui o desenvolvimento da estrutura cognitiva, que amplia e
potencializa a percepção dos sujeitos. Portanto, todo ensinante, ou seja aquele que se propõe a ensinar algo a outra
pessoa, pode encontrar no tema
da percepção um
magnífico campo de mediação, desde
que proporcione condições favoráveis para que o aprendente amplie sua
capacidade de perceber, interagindo com os objetos, com as situações, com o
mundo.
Profª. Deborah Arantes
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